Há duas horas, no dia de hoje
Augusto acaba de completar dezoito anos mas não comemorou a data.
Há dois dias
Maria faz compras no mercado, foi só ontem que o vale-alimentação foi depositado no cartão. “Só cento e vinte reais” lamenta. “Esse mês não vai dar pra comprar carne, mais um mês comendo ovo”. Ainda bem que depositaram pois não tinha mais nada no armário.
As sacolas pesadas fazem parecer maior o trajeto de duas quadras de volta à sua casa. “Aluguel, água, luz, telefone, mercado, paguei tudo; não vai sobrar pra comprar aquela blusinha que vi na promoção por quinze reais” e chora. O dinheiro que ganha como diarista mal dá para pagar as contas. “Se ao menos tivesse um marido” e continua chorando.
Natal de dois mil e dois
José está no bar com os amigos. “Passar natal sem birita, não dá” Já são onze e meia do dia vinte e quatro. “Mais uma aí mano”, de um gole esvazia o copo. “Como tá o filhote, Zé?” alguém lhe pergunta. “Vixie crescendo que só, lindo como o pai” e ri alto, a cabeça já um pouco zonza. “Mas o casamento tá pior que um porre de vinho, a mulher enche a paciência de eu vir no bar tomar a minha branquinha” acrescenta em seguida.
Na manhã do dia seguinte José já está “bom” de bebida e volta pra casa, dormiu na calçada do bar mas já havia feito isso muitas vezes. Aquele concreto já não parecia duro e de tão conhecido aparentava até ser mais macio que sua cama. “Abre a porta muié!” grita enquanto bate forte na porta frágil do barraco que construiu na invasão do bairro vizinho aonde cresceu. A mulher responde que não vai abrir. José arromba a porta. A mulher tenta se defender mas apanha. José não percebe a mesa ainda preparada para a ceia de natal. A mulher não consegue conter o marido que lhe bate na frente do filho de apenas oito anos. Maria foi embora horas depois com Augusto, seu filho. “Vou pra outro estado aonde esse desgraçado nunca mais me encontre”.
Hã um mês e pouquinho no reveillon
“Ai Joana! Ai se eu te pego, assim você me mata!” Augusto nunca tinha visto sua vizinha tão linda como naquela noite. Pediu pra “ficar”, foi no céu e voltou de tanta emoção quando ela aceitou. Depois daquele dia ficaram outras vezes. Augusto queria lhe dar um presente, mas como pois não tinha dinheiro? “Vô vê cum us muleque da vila um trampo pá ganhá uma grana!”
Semanas depois
Depois de um assalto, um caixa eletrônico explodido, um carro roubado, roubar um mercado, uma lotérica e acabar com aquele playboizinho (“Puqê qi ele tinha di qerer reagir mano? Era só dá a grana e cabô! Quis dar pinote ni mim se lascô! Chumbo nele” falava consigo mesmo) o jovem Augusto já não tinha mais medo e sua crueldade só aumentava.
“Tá aqui o colar que te prometi mina” falou pra Joana. “Amanhã faço mais um corre e aí já posso fazer um barraco pra nóis morar”.
Hoje, seis horas da manhã
Fernando dá partida no seu Eco Sport. O trabalho hoje vai ser longo, tem aquela reunião com os japoneses e depois visitar a fábrica do fornecedor de pneus no interior do estado. “Vou ter que passar no posto abastecer!”. “Me dá carona até a academia amor?” pergunta sua mulher. “Vamos!” responde.
“Que trânsito!” … “Cem reais de gasolina, por favor!”… Fernando desce do carro, segue em direção ao caixa, vai passar o cartão.
“Perdeu playboy!! PASSA A GRANA! PASSA A GRANA!” grita Augusto. Fernando pega a carteira, tem apenas cinquenta reais. Augusto fica bravo, acha que Fernando o está enganando. “O carro desse cara tá novo, ele tem mais grana e tá querendo me passar pra trás!” ”Não tenho” grita Fernando. Augusto se espanta, o medo misturado com a raiva, a adrenalina, o dedo treme, a bala sai, outra vez, outra bala, Fernando cai, sua mulher grita no carro, Augusto corre, tarde demais, a câmera pegou seu rosto. Ele vai ser preso horas depois e hoje é dia de seu aniversário. Maria, sua mãe, chora de novo. Fernando morre por cinquenta reais.
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